Fé no território mineiro

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Última atualização há 3 dias

A crença que passeia pela devoção, cultura e turismo em Minas Gerais

Novembro é o mês em que é festejado o dia de Todos os Santos. Em Minas Gerais, ainda ninguém foi santificado, mas o que não falta são relatos de milagres. O estado conta com 28 causas de beatificação e canonização, o que o coloca na segunda posição com o maior número de processos no país, atrás apenas de São Paulo, como aponta a Academia Brasileira de Hagiologia (Abrhagi).

Entre os mineiros elencados como autores de intervenções divinas e que foram beatificados pela igreja Católica, estão dois descendentes de escravos. Quem encabeça a lista é Nhá Chica. Ela nasceu no início do século XIX em São João del-Rei, mas morou em Baependi, na região Sul do Estado. Passou a vida dedicada às orações e ao aconselhamento daqueles que a procuravam. Muitas pessoas atribuíram a ela milagres, mas foi só em 2011 que uma comissão médica da Cúria Romana reconheceu o feito. A graça aconteceu em 1995, quando médicos atestaram que a professora Ana Lúcia Meirelles Leite conseguiu a cura para um problema grave no coração sem passar por uma cirurgia. O caso resultou em sua beatificação, em 2013.

Clique aqui para conferir a entrevista de Ana Lúcia no Brasil das Gerais.


Dois anos depois foi a vez de Padre Victor, o beato de Campanha, no Sul de Minas. O sacerdote nasceu em 1827 e alcançou o posto de vigário na vizinha Três Pontas, onde trabalhou mais de 50 anos desafiando todos os preconceitos da época. Entretanto, o processo de beatificação só começou em 2010, ano em que a professora Maria Isabel de Figueiredo conseguiu engravidar, contrariando diagnósticos médicos de que um problema em sua única trompa tornaria a gestação impossível.



Entre aqueles que receberam ascensão divina em Minas Gerais por meio da beatificação, há um holandês. É Padre Eustáquio*4, sacerdote europeu que adotou a ‘terra do uai’ como lar. Aos 35 anos, ele chegou ao Brasil. Seguindo seu ideal missionário, rodou pelo estado por 17 anos até se fixar em Belo Horizonte, em 1942, onde assumiu a empreitada de criação da paróquia dos Sagrados Corações, hoje chamada de Santuário Arquidiocesano da Saúde e da Paz. Ele lançou a maquete do templo em maio de 1943, mas faleceu poucos meses depois. Sua beatificação só aconteceu em 2006, após a Congregação das Causas dos Santos confirmar sua intercessão em favor do padre Gonçalo Rocha, curado de um câncer na garganta.

Na lista de mineiros que se tornaram beatos figura, ainda, Donizetti Tavares, padre que nasceu em 1882, em Cássia, Sul de Minas, e se tornou sacerdote em Tambaú, São Paulo. A graça que tornou possível o seu reconhecimento foi a cura de uma deformidade no pé de um menino. Já a jovem mineira Isabel Cristina foi outra que alcançou a beatificação, mas sem milagres. A proclamação veio depois que ela foi considerada mártir, morta defendendo os valores da castidade.

Etapas para chegar ao altar

“Até colocar alguém no altar como modelo de santidade existe um longo caminho”, disse padre Mário Sérgio Bittencourt em entrevista à Rede Minas, em 2013. O pároco ocupou o posto de vigário judicial do Tribunal Eclesiástico da Arquidiocese de Belo Horizonte até 2025, quando faleceu. Formado em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma, na Itália, ele foi autoridade em processos que avaliam as virtudes dos candidatos ao posto sagrado da igreja.

No início do processo de investigação, o candidato a santo é nomeado “servo de Deus”. Quando as virtudes cristãs dele, em graus heroicos, são reconhecidas, se torna “venerável”. Comprovado o milagre ocorrido por sua intervenção, é declarado “beato”. Só depois de confirmada uma segunda graça é que a pessoa é proclamada “santa”. “Os processos de beatificação e canonização passam, obrigatoriamente, por um Tribunal Eclesiástico”, explicou o padre. Segundo ele, o trâmite conta com um postulador e um promotor de Justiça, que se ocupam de defender ou contrariar o santificado. “É muito fácil ser santo. Difícil é ser canonizado”, falou.

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